VILA DO CONDE ESPRAIADA (VILA DO CONDE EXTENDED) (2015)

  • Fiction, Documentary
  • 35min

“Na sequência da passagem do seu filme “O Triângulo Dourado”, prémio para melhor filme na competição nacional do Curtas em 2014, Miguel Clara Vasconcelos propôs-nos uma produção cuja base seria composta por arquivos pessoais e filmes amadores em super 8 ou 16mm, rodados em Vila do Conde, intercalados com uma parte ficcional filmada na actualidade. O nosso entusiasmo foi total: desde há alguns anos que falávamos sobre um projecto de pesquisa e digitalização de material com imagens da cidade, bobines esquecidas algures em sótãos e baús, mas ainda sem um destino concreto. Esta ideia do Miguel era a motivação que faltava para arrancar com esse projecto, que tomou a forma de uma residência artística a explorar em duas vertentes: um filme, que se viria a chamar “Vila do Conde Espraiada”, e uma exposição em forma de instalação audiovisual, integrada na programação da Solar – Galeria de Arte Cinemática, e que foi montada no Centro de Memória, chamada “Onde o Coração Se Esconde”, numa dupla referência a dois grandes escritores com uma ligação à cidade, José Régio e Ruy Belo. Segundo o realizador, “a memória de Vila do Conde é também a memória da minha mãe. Quando faleceu, tive uma vertigem. O tempo passado nessa vila-cidade parecia desaparecer bruscamente, escapar-me, morrer em mim. Na edição de 2014 do Curtas, percebi que era urgente trabalhar essa matéria sensível, mágica, que é a infância e que foi para mim Vila do Conde”. “Vila do Conde Espraiada” reapropria esses pequenos filmes encontrados para, a partir daí, construir uma narrativa apoiada na revisitação de memórias da infância e da juventude, sobretudo da década de 1980. Trata-se de uma autobiografia ficcionada, alternando imagens do presente (ficção) e do passado (documental), onde a feliz opção por filmar em película 16mm fortaleceu a coesão entre as imagens. Também o fio condutor da narração é bastante cativante: a gravação de uma cassete de fita magnética, em forma de carta de amor com canções pelo meio, para uma namorada que se encontra longe. As palavras e as imagens criam, numa linguagem poética que já encontrávamos noutras obras do autor, uma envolvente emocional que mistura a história de amor com as memórias de acontecimentos dispersos, uns importantes, outros aparentemente insignificantes, mas são esses que fazem de nós aquilo que somos hoje em dia, e que nunca poderão ser dissociáveis de um determinado lugar, de uma certa cidade ou paisagem. De uma forma notável, o filme integra ainda o comentário político de uma época plena de convulsões, não abdicando do ponto de vista do entendimento de uma criança e recorrendo ainda, pelas imagens dos arquivos, aos grafittis políticos que eram comuns por essa altura em todas as cidades portuguesas. No centro desse comentário político surge uma das ideias mais felizes do filme, as ligações entre os meninos ricos e os meninos pobres (que para o Miguel enquanto criança eram os “meninos da avenida” e os “meninos do campo”, já que estes viviam em casebres que se vislumbravam nos terrenos baldios das traseiras do jardim de sua casa). À liberdade política recentemente conquistada junta-se uma ideia de liberdade perdida, a da infância. Esta podia ser apenas uma aventura num passeio de bicicleta para lá das placas na estrada que indicam a entrada em Vila do Conde, ou um evento indecifrável numa tenda de campismo fora dos limites da cidade. Ou, como diz o realizador/narrador, “a liberdade das crianças está em não perceber muita coisa, não se sacrificar por dinheiro nem sofrer de amor”.”

“Following the exhibition of his film ““O Triângulo Dourado”“, awarded for best film in the national Short Film Competition in 2014, Miguel Clara Vasconcelos proposed us a production whose base would be composed of found footage and amateur films in super 8 or 16mm, shot in Vila do Conde, interspersed with a fictional part filmed today. Our enthusiasm was total: for some years we had been talking about a project of research and digitalization of material with images of the city, forgotten reels of film somewhere in attics and old trunks, but still without a concrete destination. Miguel’s idea was the motivation to start this project, which took the form of an artistic residency to be explored in two ways: a film, which would be called ““Vila do Conde Espraiada”“, and an exhibition in the form of an audiovisual installation, integrated in the program of the Solar - Galeria de Arte Cinemática, and which was assembled in Centro de Memória, called ““Onde o Coração Se Esconde”“, in a double reference to two great writers with a connection to the city, José Régio and Ruy Belo. According to the director, ““the memory of Vila do Conde is also the memory of my mother. When she passed away, I had a vertigo. The time spent in that town seemed to disappear abruptly, to escape, to die in me. In the 2014 edition of Curtas, I realized that it was urgent to work on this sensitive, magical matter, which is childhood and which was for me Vila do Conde”“. ““Vila do Conde Espraiada”” reappropriates these small films to, from then on, build a narrative based on the revisiting of childhood and youth memories, especially of the 1980s. It is a fictional autobiography, alternating images from the present (fiction) and the past (documentary), where the right option to shoot in 16mm strengthened the cohesion between the images. Also, the thread of the narration is quite captivating: the recording of a tape cassette, in the form of a love letter with songs in the middle, for a girlfriend who is far away. The words and the images create, in a poetic language that we already found in other works of the author, an emotional attachment that mixes the love story with the memories of dispersed events, some important, others apparently insignificant, but they are the ones that make us what we are today, and that can never be dissociated from a certain place, a certain city or landscape. In a remarkable way, the film still integrates the political commentary of a time full of convulsions, not renouncing to the point of view of a child’s understanding, and improved by the use the archival footage of the political graffiti that were common at that time in all Portuguese cities. One of the happiest ideas in the film is the relation between rich and poor children (who for Miguel as a child were the ““boys of the avenue”” and the ““boys of the wasteland”“, since they lived in huts that could be seen in the wasteland at the back of the garden of his house). In addition to the political freedom recently gained, there is also an idea of lost freedom, that of childhood. It could be just an adventure on a bicycle ride beyond the road sign indicating the entrance to Vila do Conde, or an impenetrable event in a camping tent outside the city limits. Or, as the director/narrator says, ““the freedom of children lies in not understanding a lot of things, not sacrificing themselves for money or suffering from love”“.

Languages

Portuguese, French

Subtitles

English