NE CROYEZ SURTOUT PAS QUE JE HURLE (NÃO PENSEM QUE VOU GRITAR) (2019)

  • Documentary
  • 1h 16m

Uma relação amorosa terminada, um longo inverno pela frente, a França em choque e em estado de emergência e clima securitário, na sequência dos atentados terroristas de Novembro de 2015. É este o pano de fundo para um auto-retrato dos meses de reclusão voluntária do realizador Frank Beauvais numa pequena localidade no leste de França, rodeado pela natureza. Mas neste luto pelo final de uma relação afectiva não há lugar para qualquer retrato bucólico e pastoril da vida no campo. Apenas alguma raiva contida e impotência, momentos de solidão, depressão e desalento, só interrompidos pelos gestos quotidianos ligados à mera sobrevivência e pelo visionamento de 4 a 5 filmes por dia, meses a fio, devorados de forma compulsiva numa espécie de bulimia cinéfila dos novos tempos da internet. No total, mais de 400 filmes que nos são devolvidos em pedacinhos num imenso e excessivo puzzle de imagens heterogéneas, sem hierarquia – filmes chave da história do cinema convivem com raridades quase invisíveis ou filmes de série z – e sem qualquer reconhecimento imediato, mesmo para o cinéfilo mais avisado: Beauvais faz questão de nunca escolher uma imagem relevante de um filme ou mostrar um actor conhecido. Estas imagens são acompanhadas pela voz off do realizador, num fluxo incessante de palavras, que aquelas complementam sem nunca se tornarem numa ilustração, funcionando antes como contraponto e metáfora. O texto é um diário pessoal de grande qualidade literária e poderoso simbolismo, lúcido, poético e comovente. Gesto absolutamente singular e obra-prima do cinema contemporâneo, “Ne croyez surtout pas que je hurle” é produto de uma crise amorosa que é também crise de identidade e tempo de dúvidas, mas onde os dias sombrios e o desespero também podem dar lugar à esperança, como nesse belíssimo plano aéreo em que o olhar de Frank Beauvais levanta literalmente vôo, como que a acreditar que a cinefilia compulsiva não tem que ser um vício perigoso ou uma forma de não viver as nossas vidas, mas também um modo de as salvar. (MD)

A romantic relationship comes to an end, and a long winter lies ahead. Following the November 2015 terrorist attacks, France is in shock, in state of emergency and high alert. This is the background for Frank Beauvais’s self- portrait during the months of voluntary confinement in a small town in the east of France, surrounded by nature. However, during this mourning for the end of a love affair, there is no place for the slightest bucolic portrait of country life. Just some bottled up anger, and helplessness, moments of solitude, depression and despondency, interrupted only by everyday gestures to do with mere survival, and the screening of four to five movies a day, for months on end, devoured compulsively in a sort of cinephile bulimia made possible by the age of internet. In total, more than 400 films are digested to us in small pieces, in a huge and excessive puzzle of heterogeneous images, with no hierarchy – key movies in film history coexist with almost invisible rarities or z-movies – and no need for instant recognition, even for the most acute cinephile. Beauvais makes a point of never choosing a film’s relevant image or showing a well-known actor. These images are scored by the filmmaker’s voice off, in a relentless word-flow that complement them without ever becoming an illustration, serving instead as counterpoint and metaphor. The text is a private journal of great literary prowess and powerful symbolism, lucid, poetic, and moving. An absolutely unique gesture and a masterpiece of contemporary cinema, “Just Don’t Think I’ll Scream” is the fruit of a love crisis that is also an identity crisis in uncertain times, in which dark days and despair can also give place to hope, as in a gorgeous aerial shot in which Frank Beauvais’s gaze literally takes flight, as if believing that compulsive cinephilia does not have to be a dangerous addiction or a way of not living our lives, but actually of saving them. (MD)

Language

French

Subtitles

English, Portuguese