180° RULE (A REGRA DOS 180º) (2020)

  • Fiction
  • 1h 23m

O título do filme é uma regra do cinema que visa manter o equilíbrio espacial entre duas personagens no ecrã. É, justamente, através deste prisma que a lente de Samadi põe em foco a dinâmica das relações humanas, tanto no seio de uma família de classe média iraniana, como nas relações emocionais entre professora e aluna num liceu da cidade, explorando, deste modo, tanto o espaço privado quanto o público. À medida que o drama avança sobre a vasta teia das relações familiares, os segredos e as lealdades, o dito e o não dito, a verdade e a ocultação mesclam e matizam qualquer possibilidade de clareza sobre as noções de bem e de mal, de certo e de errado ou até mesmo de sagrado e de profano. São as dicotomias por contraste da sociedade iraniana que são chamadas à liça, como sempre nos filmes de Samadi, sabendo que nunca a realizadora procura qualquer síntese para esta aparente dialética. Mas vamos então à história, que começa com Sara (Sahar Dolatshahi), uma dedicada professora de um liceu de Teerão que aí vive com o seu marido, Hamed (Pejman Jamshidi) e a sua filha de cinco anos, Raha. A família prepara-se para assistir a um casamento no norte do país, mas um imprevisto no trabalho de Hamed é o motivo que, desta vez, ocupa o lugar de gatilho banal que despoleta a catástrofe fazendo do quotidiano um lugar insuportável. Sara está decidida a juntar-se à celebração, mas Hamed, austero e teimoso, não lhe concede permissão para fazer a longa viagem sem ele. Quando o raciocínio e a conversa doce falham, a obstinada Sara inventa um plano para desrespeitar a autoridade do marido. Mas outro acontecimento imprevisível dita a sorte (ou destino) da família e precipita a transgressão de Sara. Inspirada em factos reais e marcando o início de uma série de filmes com atmosferas muito semelhantes, “180° Rule” é o filme de estreia de Farnoosh Samadi, enquanto argumentista e realizadora a solo. Num estilo depurado e aparentemente neutro, o filme evidencia, de forma silenciosa, a violência do moralismo austero. É de realçar o trabalho de Sahar Dolatshahi que, num desempenho consonante com a sobriedade da câmara de Samadi, dá ao filme o mutismo do seu rosto que universaliza o “pathos” de todas as mães constrangidas pelas forças invisíveis de instituições patriarcais, sociais e legais. Eis a regra de “180º Rule”: os dilemas morais podem sempre ser vistos de duas maneiras. Mas dar a ver esta realidade só é possível no grau zero da sobriedade, algo que Farnoosh Samadi domina na perfeição. (LL)

The film’s title is a rule of cinema that aims to maintain spatial balance between two characters on screen. It is precisely through this prism that Samadi’s lens brings into focus the dynamics of human relationships, both within an Iranian middle-class family and in the emotional relationships between a teacher and a student in a city high school, thus exploring both private and public space. As the drama progresses over the vast web of family relationships, secrets and loyalties, the said and the unspoken, truth and concealment blend and nuance any possibility of clarity over notions of good and evil, right and wrong or even sacred and profane. It is the dichotomies by contrast of Iranian society that are called into play, as always in Samadi’s films, knowing that the director never seeks any synthesis for this apparent dialectic. But let’s get to the story, which begins with Sara (Sahar Dolatshahi), a dedicated teacher in a Tehran high school who lives there with her husband, Hamed (Pejman Jamshidi) and their five-year-old daughter, Raha. The family is preparing to attend a wedding in the north of the country, but an unforeseen event at Hamed’s work is the reason that, this time, takes the place of a banal trigger that sets off the catastrophe, making everyday life an unbearable place. Sara is determined to join the celebration, but Hamed, stern and stubborn, does not grant her permission to make the long journey without him. When reasoning and sweet-talking fail, obstinate Sara devises a plan to flout her husband’s authority. But another unforeseen event dictates the family’s fortunes (or fate) and precipitates Sara’s transgression. Inspired by true events and marking the beginning of a series of films with very similar atmospheres, “180° Rule” is Farnoosh Samadi’s debut film as a solo screenwriter and director. In a clean and seemingly neutral style, the film quietly highlights the violence of austere moralism. It is worth highlighting the work of Sahar Dolatshahi who, in a performance consonant with the sobriety of Samadi’s camera, gives the film the mutism of her face that universalizes the “pathos” of all mothers constrained by the invisible forces of patriarchal, social and legal institutions. Here is the “180º Rule”: moral dilemmas can always be seen in two ways. But bringing this reality into view is only possible in the 0 degree of sobriety, something that Farnoosh Samadi has mastered to perfection. (LL)

Director

Farnoosh Samadi

Producer

Al Mossaffa

Language

Greek

Subtitles

English, Portuguese

Country

Iran